“A experiência me ajuda a não ter medo, mas ainda fico nervosa ao falar em público”. Essa frase é de ninguém menos do que Brené Brown, logo no início de seu livro “Coragem para liderar”. 

 

Esse nervosismo não tem a ver com hesitações, excesso de “né” e “tá”, ter um branco ou não saber a resposta de uma pergunta, como geralmente ouço das pessoas nos cursos ou leio em textos sobre o assunto. Essas ocorrências são apenas a ponta do iceberg. Brené sabiamente aponta dois nobres motivos para esse nervosismo, com os quais concordo plenamente. 

 

Primeiro, porque se apresentar é um momento em que as pessoas da plateia oferecem o seu bem mais valioso - seu tempo. Segundo porque falar em público é um ato de vulnerabilidade, pois se trata da imprevisível e incontrolável arte da conexão.

 

Por isso mesmo é tão fundamental dedicar atenção, tempo e cuidado ao se preparar para conduzir reuniões, participar de comitês, apresentar projetos e ideias para as pessoas. Nesses contextos, expressamos não só o domínio sobre um assunto, mas validamos as escolhas para comunicar esse conteúdo, revelamos ou escondemos traços de quem somos, damos cor e tom para informações e traços de nossa persona. 

 

E como é valioso assumir esse papel de conduzir apresentações com eficiência, naturalidade e credibilidade. No livro “Five Stars”, de Carmine Gallo aponta que 94% de 400 profissionais de RH entrevistados afirmaram que pessoas com forte habilidade comunicativa têm mais chance de serem promovidas do que as com mais anos de experiência e menos capacidade comunicativa. 

 

Você pode até questionar se a comunicação deveria ser tão valorizada assim. Então, veja o ciclo virtuoso desenhado por Gallo nesse mesmo livro: (1) as pessoas persuadem as outras para dar suporte às suas ideias, o que as ajuda a (2) viabilizar inovações criativas que levam a atingir os objetivos da organização, assim como (3) atraem recursos, investimentos e apoio, que (4) elevam seu status e reputação. E o ciclo se repete, se repete, se repete. 

 

Esse ciclo reforça como número de “nés” ou o receio do branco é apenas a ponta do iceberg. Precisamos ampliar nossa visão sobre o que representam as apresentações, para desenvolver e a aplicar práticas e técnicas estratégicas, condizentes com nossas intenções e alinhadas com o tom de voz e a cultura da organização que representamos.   

 

Para praticar a comunicação nesses contextos olhando para o que está submerso nesse iceberg, recomendo quatro boas práticas:

 

1. Planeje sua apresentação com alguma antecedência e com critérios como: distinção entre tema, objetivo e mensagem central; tópicos condizentes com o objetivo e a plateia; formas de começar, encadear as ideias e concluir a mensagem. Só depois confeccione os slides, antes disso, é mais perda de tempo e supervalorização do recurso e não do roteiro da sua fala ou da conexão com as pessoas. 

 

2. Tenha um repertório de anedotas, exemplos e boas histórias que conectem o conteúdo com a plateia. Nada melhor do que o dia a dia para tornar acessível e simples o que é complexo. Além disso, esses elementos são uma forma de reverenciar as pessoas ali presentes, que dedicaram seu tempo para te ouvir, e evidenciam a sua apropriação ao tema, não apenas um passar pelo conteúdo de forma mecanizada.

 

3. No dia da apresentação, vale chegar ou conectar com antecedência, para mergulhar no aqui e agora e estar realmente presente. Quantas vezes as conversas que ocorrem antes ou depois da exposição conectam e dão ainda mais tons para sua comunicação e reputação. 

 

4. Toda habilidade é aprimorada quanto mais a pessoa treina, exercita, vivencia situações de apresentação. E mais do que tudo: reflete sobre o que funcionou ou não, sem um viés julgador, mas sim com um olhar para aprendizados, para apreciar feitos e criar planos de ação para novas situações.

 

E já que comecei o texto com Brené Brown, encerro também com uma prática que ela mesma aplica em suas palestras. Sejam pessoas C-level, cientistas ou qualquer outro cargo diante dela, Brené sussurra para si mesma três ou quatro vezes antes de começar: pessoas, pessoas, pessoas, pessoas. Afinal, comunicação é sobre isso: conexão com as pessoas. Encontramos a humanidade em nós mesmas e nas outras pessoas quando tiramos os cargos da frente.  

 

Por fim, mas não menos importante, encerro este texto com três sugestões, como costumo fazer para semear o aprendizado ao longo da vida. Para ler: “A coragem para liderar”, de Brené Brown e “Five Stars”, de Carmine Gallo; para assistir: Larry Crowne - O amor está de volta, com Julia Roberts no papel de professora de oratória. 

 

 

Texto escrito por Vívian Rio Stella, publicado em sua coluna mensal na revista Você RH, em agosto de 2022.


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