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Isolamento social, distanciamento social, novo normal, quarentena, covid-19, coronavírus, vírus chinês, gripinha.

 

Esse muliplicidade de termos revela a instabilidade entre as palavras e as coisas, evidenciando que os modelos de mundo não são estáticos, como bem afirmam linguistas como Marcuschi, Koch, Morato, Magalhães e tantos outros.

 

E note como a nomear as coisas do mundo revela muito sobre língua, pensamento e interação.

 

Uma doença pode existir, mas sem que seja nomeada, não há todo um repertório de protocolos, estudos e dados sobre ela. Quantas pessoas tinham mal de Alzheimer, mas eram ditas esclerosadas antes de a doença ser nomeada. A mesma reflexão vale para sentimentos, que, quando não nomeados, nos deixam confusas e sem estratégias sobre como agir.

 

Vale dizer que, muitas vezes, essa nomeação é negociada, reconfigurada, debatida. Há quem prefira o uso do termo empregado, funcionário, colaborador, integrante ou crie novos termos para referir-se aos profissionais que atuam numa empresa.

 

Esses exemplos evidenciam como a realidade se transforma em palavras por meio dos nossos sentidos, nossa percepção e interpretação humana; como a escolha das palavras tem forte relação com o contexto da comunicação, seu ponto de vista e o momento histórico-social.

 

A discussão sobre a relação entre língua e vida social, linguagem e mundo ou pensamento e linguagem não é nova nem se restringe a uma área do conhecimento. Desde a antiguidade, filósofos, antropólogos, sociólogos, psicólogos, neurocientistas e linguistas, entre tantos outros cientistas, dedicam-se a estudar essas relações tão complexas, a partir de diferentes abordagens.

 

Por ora, cabe esclarecer que, no século passado, havia os cognitivitas clássicos que se preocupavam fundamentalmente com os aspectos internos, mentais, individuais, inatos e universais do processamento da linguagem; e os estudiosos que se preocupavam com aspectos externos, sociais e históricos da linguagem. Que bom que o que se vê, em pleno século XXI, é cada vez mais um diálogo entre as perspectivas, para entender a linguagem como uma ação conjunta. Especialmente porque compreender a linguagem é entender como os falantes se coordenam para fazer alguma coisa juntos, utilizando simultaneamente recursos internos, individuais, cognitivos e recursos sociais e discursivos. 

 

Um filme que nos ensina muito sobre isso que acabo de explicar é “A chegada”, de 2016, dirigido por Denis Villeneuve. A linguista Drª Louise Banks (interpretada por Amy Adams) é chamada pelo governo americano para traduzir a língua alienígena e tentar se comunicar com eles na tentativa de descobrir suas intenções no planeta. É de uma beleza sem igual a forma como os alienígenas são representados no filme (por si só uma composição pela linguagem), como a linguista busca interagir com eles e como há relações indissociáveis entre linguagem, pensamento, sociedade e poder.

 

Saindo do filme e vindo para o nosso dia a dia, quando dizemos expressões como “costas da televisão” e “pé da mesa”, já revelamos a forma como organizamos cognitivamente o mundo e como nomeamos a partir da nossa corporalidade.

 

Até mesmo atos de fala como “divida o chocolate com sua irmã” não pressupõem, de forma natural e automática, uma divisão igualitária. Quando se espera uma divisão em partes iguais já se revelam valores, práticas sociais pelo uso da língua.

 

Como bem afirma Marcuschi, a língua não é um retrato, e sim um trato do mundo, interior ou exterior, uma forma de agir sobre ele. Por isso, cuide das palavras, fique atento a elas, reflita como elas revelam sobre si mesma/mesmo, sua cultura e seu pensamento e de todos a seu redor.

 

Convido vocês a se voltarem para a linguística, a ciência da linguagem, que se debruça há pouco mais de um século a estudar esses fenômenos. No curso “Linguagem e Pensamento Crítico”, que começa em 14 de abril na Casa do Saber, você poderá aprimorar sua percepção  para o fenômeno da linguagem sem certo e errado, pode ou não pode, mas sim com toda a beleza e os embates que a interação nos proporciona diariamente.

 

Serviço:

Casa do Saber

Linguagem e pensamento crítico

Uma introdução à linguística no cotidiano

 

Professora Vivian Rio Stella

Duração 6 encontros

Dias quartas-feiras, das 20h às 21h30

Encontros 14/4, 21/4, 28/4, 5/5, 12/5 e 19/5

 

O curso oferece uma introdução à linguística de forma leve e prática, a partir da relação entre as palavras e as questões atuais do mundo. Você entenderá de que maneiras as palavras e expressões são capazes de transformar (e serem transformadas pela) cultura e sociedade.

 

Nesse sentido, a linguagem não é simplesmente um retrato do mundo, mas também uma forma de agir sobre ele, que revela detalhes sobre como pensamos e nos relacionamos com os outros e com nós mesmos. Mais do que regras, ou o que na linguagem é certo ou errado, ela diz respeito a uma construção coletiva, constante, com potencial de provocar, fazer pensar, trocar experiências e transformar o mundo..

 

Encontro 1 | Língua e linguagem: uma forma de aprender a pensar | quarta-feira, 14 de abril, das 20h às 21h30

Há quem acredite que língua é igual a gramática, comunicação clara é aquela considerada correta, e que temos uma das línguas mais difíceis do mundo. Será mesmo? Neste encontro você vai entender conceitos como norma, registro, estilo e língua e como é possível não haver certo e errado. Neste encontro você perceberá de que forma, ao estudar língua e linguagem, você também aprenderá a pensar.

 

Encontro 2 | As palavras e as coisas | quarta-feira, 21 de abril, das 20h às 21h30

Nesta aula você irá entender por que ao se comunicar você revela também sua trajetória, valores, posição social, política - ou seja, como determinados assuntos te afetam. As formas pelas quais você se expressa são escolhas linguísticas que revelam muito sobre as narrativas que lhe constituem e como, ao entender essas dinâmicas, é possível se relacionar de forma mais autêntica com o que está à sua volta.

 

Encontro 3 | É possível ser neutro e transparente? | quarta-feira, 28 de abril, das 20h às 21h30

É possível haver neutralidade no uso da linguagem? Como apresentado no encontro anterior, a linguagem se contamina com valores de cada sociedade e época. Você entenderá a diferença entre linguagem, língua e discurso, e como pautas como sexismo e neutralidade de gênero têm transformado a linguagem e, sobretudo, como a linguagem é uma ferramenta poderosa para combater desigualdades e favorecer a inclusão.

 

Encontro 4 | Comunicação, identidade e poder | quarta-feira, 5 de maio, das 20h às 21h30 .

A linguagem tem uma função central: a de comunicar ao ouvinte a posição que o falante ocupa (ou acha que ocupa) na sociedade. Pessoas falam, postam vídeos, fotos ou qualquer conteúdo para serem ouvidas, respeitadas e também para (tentar) exercer alguma influência sobre outras pessoas. O encontro apresenta as relações entre linguagem, identidade e poder e como elas se manifestam, na maioria das vezes, de maneiras extremamente sutis.

 

Encontro 5 | Você sabe com quem está falando? Contexto, discursos e segundas intenções | quarta-feira, 12 de maio, das 20h às 21h30

Como transmitir uma ideia da forma mais eficiente possível, já que a linguagem vai além de “certos” ou “errados”? Isso depende de algo chamado contexto: aquilo que dá sentido a uma realidade e que é interpretado por quem a compartilha - ou seja, mesmo sem perceber, você tem uma postura ativa no reforço ou desconstrução da realidade em que vive. O encontro reúne linguística e antropologia e oferece recursos para você conhecer, de forma eficiente, quem é sua audiência e como desenvolver a melhor estratégia para se conectar (não apenas se comunicar) com ela.

 

Encontro 6 | A transformação de si e do mundo | quarta-feira, 19 de maio, das 20h às 21h30

Em qualquer interação, escrita ou falada, as pessoas estão em constante (re)alinhamento de postura, posição, projeção do “eu” - isso significa que não é apenas a realidade que pode se transformar, mas você também, por meio das interações que tem com o mundo ao redor. Este encontro vai tratar da contextualização e das estratégias, sutis e complexas, que fazem do uso da linguagem uma ferramenta essencial de aprendizado, desenvolvimento pessoal e conexão com o mundo e os outros.

 

Vivian Rio Stella é doutora em linguística pela Unicamp, com pós-doutoramentos pela mesma universidade e pela PUC-SP. Autora de Comunicação Eficiente (Aberje Editorial, 2020), é idealizadora da VRS Academy.

 


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