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Filmes, séries e documentários que retratam a vida de astronautas em aventuras fora da Terra quase sempre são protagonizados por homens. De “O primeiro homem”, a “Perdido em Marte”, passando por “Lunar” e “Armagedon”. Algumas boas exceções são “Gravidade”, em que Sandra Bullock divide a expedição com George Clooney, e “Interestelar”, com Anne Hathaway e Matthew McConaughey.

 

E olha que a história da NASA é marcada por conquistas graças a mulheres, como Katherine Johnson, que atuou lado a lado dos engenheiros e foi a primeira pessoa negra a participar da Space Task Force, responsável por colocar seres humanos no espaço o mais rápido possível.

 

Então, nada mais justo do que homenagear as mulheres neste mês de março com a série do Netflix “Away”, estrelada por Hilary Swank, que dá vida à Emma Green, a astronauta, pilota e comandante da primeira missão tripulada para Marte.

 

Se você já acompanha esses artigos que publico mensalmente aqui no portal da Aberje, sabe que a proposta desta série de textos não é fazer a sinopse e uma crítica à produção midiática, mas sim criar pontes entre ficção e realidade, evidenciando, assim, como aprendemos a partir do que vemos, ouvimos e sentimos diante das telas.

 

Vamos aos três destaques da série “Away”, com 10 episódios que nos colocam diante de dilemas da vida de qualquer uma de nós, não apenas da astronauta que só voltará para casa depois de 3 anos, se tudo correr bem durante a expedição ao planeta vermelho.

 

 

Liderança feminina

A protagonista da série “Away” enfrenta os desafios da carreira de pilota na NASA, algo mostrado em momentos de flashback e, claro, na própria missão para Marte, desde a apresentação da tripulação à imprensa, a momentos em que a equipe questiona quão preparada Emma está para lidar com fatos prováveis e os impensáveis  numa expedição dessa magnitude. Assertividade, foco em resolução de problema e não em agradar os outros, olhar para o todo, perguntas que abrem caminhos para o diálogo e novas soluções dão o tom dessas cenas e podem nos ajudar em nosso dia a dia, tão distinto e tão parecido com essa equipe na estação espacial fora da Terra.

 

Além disso, há a família de Emma, composta pela filha adolescente e pelo marido, que, logo no primeiro episódio, enfrenta um problema de saúde que muda sua vida. As cenas dessa conexão afetiva espaço-Terra são uma lição e tanto para nós, mulheres líderes, quanto para todos os profissionais que se relacionam com mulheres e seus múltiplos papéis, expectativas e cobranças pessoais e sociais. Choro, riso, ritos, símbolos que marcam a história de todas e todos e nos fortalecem diante dos desafios do dia a dia. Quais são os que marcam suas relações familiares e, por que não pensar, suas relações profissionais, que pedem por mais humanização em tempos de tanto distanciamento e isolamento?

 

 

Relação entre os que estão “lá” e “aqui”

Protocolos para lidar com doenças a bordo e com problemas dentro e fora da estação espacial não contemplam o desafio que é enfrentar tais situações quando elas ocorrem. É interessante perceber as tensões e os conflitos entre os tripulantes e, ainda mais, as diferentes perspectivas de quem está com a vida em risco lá no espaço em comparação com quem está no aqui na Terra, no centro de comando da NASA, sem risco de morrer, mas com risco reputacional para os países envolvidos na missão, para a organização e pra suas próprias carreiras.

 

Vale refletir constantemente sobre como quebrar os silos que ainda vivemos em muitas organizações e, assim, diminuir a distância de perspectivas de quem está “lá” na unidade fabril e “aqui” no home-office, “lá” nas tomadas de decisão” e “aqui” fazendo as ações, “lá” atuando como porta-voz diante das câmeras e nas redes sociais e “aqui” criando estratégias e mensagens-chave.

 

Diálogo, autonomia e responsabilidade, abertura para experimentação e análise de risco podem ser boas estratégias para diminuirmos essa distância entre “lá” e “aqui”.

 

 

Diversidade

Emma, astronauta, pilota e comandante da expedição a Marte, está acompanhada da química Lu (Vivian Wu), o botânico Kwesi (Ato Essandoh), o copiloto Ram (Ray Panthaki) e o engenheiro veterano Misha (Mark Ivanir). As diferentes origens, formações, idade e tempo de experiência da tripulação propiciam cenas emblemáticas para aprendermos muito sobre diversidade, resiliência, respeito e empatia. Todos vivem conflitos com todos, com maior ou menor intensidade e, mesmo que nenhuma de nós passe por situação igual a que os astronautas vivem na série, podemos nos reconhecer um pouco ou muito em cada um dos personagens, suas falas, suas formas de agir e ver os problemas, seus valores frente à vida. Por isso, por mais que as semelhanças pareçam propiciar ambientes mais harmoniosos, é na diversidade de pensamento, de repertório e história de vida que crescemos e inovamos. Essa afirmação pode parecer um senso comum, mas te convido a assistir a série e a perceber no seu dia a dia quanto a diversidade demanda nossa atenção, nosso aprendizado e nossa abertura constante. E quanto isso nos enriquece!

 

 


Texto escrito por Vívian Rio Stella, originalmente publicado em sua coluna mensal do Portal Aberje, em março de 2021.


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