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São tantas séries para assistir em plataformas de streaming que, na coluna deste mês, proponho uma reflexão dos aprendizados de uma série para ouvir. Isso mesmo. Vinte mil léguas, o podcast de ciências e livros, apresentado por Leda Cartum e Sofia Nestrovski, com apoio do Instituto Serrapilheira e Livraria Megafauna, é um convite para aprender sobre ciência de forma poética.

 

Um navio com nome de cachorro. Um novo estoque de metáforas. Os marcianos saíram do cilindro. Esses são alguns dos nomes dos 10 episódios, que nos relembram da importância dos títulos de nossos textos, de nossas campanhas e tantas outras composições. Porque é por meio dessa chamada, sintética e composta de poucas palavras, que ouvintes, leitores, espectadores se dispõem a usar seu precioso e escasso tempo para mergulhar no conteúdo. Em tempos de valorização da concisão, parar para pensar em cada palavra do título pode fazer toda diferença para atrair a atenção do olhar das pessoas.

 

O personagem do podcast é nada menos do que Charles Darwin, narrado de uma forma que poucos já ouviram. Outra lição e tanto para todas e todos que produzem conteúdo, criam campanhas e atuam pela linguagem diariamente, como nós comunicadores. Enquanto circulam técnicas, a meu ver, mirabolantes, de gatilhos, fórmulas disso ou daquilo, compor uma narrativa tão consistente, leve e gostosa de ouvir sobre um tema pouco presente no cotidiano de grande parte das pessoas, como ciência e evolucionismo, é um desafio que “vinte mil léguas” encara com maestria. O roteiro de cada episódio, fruto de uma densa pesquisa feita pelas roteiristas, te convida a imaginar como Darwin atuava, te transporta para um tempo que não vivemos e nos revela o ser humano, mais do que o cientista que foi e é. Que poder tem o uso da língua e quanto podemos explorar diferentes estratégias para compor roteiros audiovisuais, materiais diversos, sem necessariamente recorrer a fórmulas mirabolantes.

 

Particularmente, meu encantamento pela série está diretamente relacionado a essa aproximação de mundos, aparentemente, distantes: a ciência e a poesia. Porque teoria parece que virou sinônimo de algo difícil, distante, não aplicável; ciência parece ser aquela feita dentro do laboratório. Leda Cartum e Sofia Nestrovski nos contam sobre o olhar curioso para todas as formas vivas a seu alcance e as peripécias de Darwin pelo mundo, a bordo do navio Beagle ou na sua casa, de onde se correspondia com inúmeras pessoas, num tempo nada digital. Sabemos mais sobre o processo de composição da Teoria da Evolução, dos dilemas que enfrentou até enfim publicá-la, nos lembrando que genialidades, conceitos e teorias não nascem da noite para o dia. E, acima de tudo, que ciência é parte da vida e tem sua beleza, sua poesia. Criar essas conexões entre diferentes campos de atuação, de práticas e de linguagens é algo que contribui muito para ampliar repertórios, sair do senso comum e evidenciar a tão falada diversidade.

 

Deixo esse convite dessa bela série para ser ouvida, recorrendo às palavras das escritoras responsáveis pelo podcast, “ler a ciência, assim como ler a poesia, é tomar o partido do mundo; é gostar das coisas que existem sobre a superfície da Terra” .

 

 

Texto escrito por Vívian Rio Stella, originalmente publicado em sua coluna mensal do Portal Aberje, em maio de 2021.

 


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